quarta-feira, 9 de abril de 2008

Reflexos “Tropa de Elite”

A estrutura caótica socioeconômica, legislativa e jurídica brasileira está gerando uma nova linha de “heróis”: Os Capitães Nascimento. Estes indivíduos que lutam por uma sociedade sem violência, mais digna, onde seus filhos possam crescer saudáveis e em paz são em suas maiorias policiais militares, seres de baixíssima escolaridade, pouquíssimo conhecimento de leis e péssimo treinamento policial. Entretanto suas capacidades de lutar pelos seus ideais e seu poderes são razoavelmente consideráveis já que o estado os arma seu desejo de justiça é alimentado pelo cinema e raramente são controlado pelo grande e poderoso Estado. [br][/br] A partir desse cenário os saudosos gladiadores da paz e dos bons costumes procuram seus adversários e quando é possível autuar sobre eles o fazem sem nenhum temor. O problema na vida dos agentes começa quando se deparam com os tão odiados estudantes, também conhecidos por maconheiros. Diariamente esses encontros são passivos, eles não se chocam sem um motivo, mas quando uma faísca lançada o conflito ganha cara e tamanho, e nessas grandes batalhas um lado perde e o outro ganha, um perde a integridade física o outro ganha muita dor de cabeça e isso tudo porque um tem armas e o outro tem conhecimento de leis ou papai rico/influente. [br][/br] Os resultados finais de toda esta real e absurda história são conflitos cada vez mais freqüentes entre os grupos, crescimento do desrespeito de ambas as partes e uma incrível capacidade de negar a importância do outro grupo para a melhoria do país.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Uma viagem ao sul do país

No dia 16 de dezembro, manhã de domingo, eu e mais 40 pessoas saíamos em direção à cidade de Foz do Iguaçu - PR. Passando por São Paulo na ida e por Curitiba na volta, as viagens duraram cerca de 27 horas cada uma. A cidade com 270 mil habitantes, assim como as outras cidades que conheço no Paraná é bonita, limpa, arborizada e aparentemente tranqüila. Possui divisas com a cidade argentina Puerto Iguazu e com a paraguaia Ciudad del Este. E é em Foz do Iguaçu também que se encontra a maior usina hidrelétrica do mundo (em geração de energia).

Mal chegamos ao hotel na segunda-feira à tarde, e já nos preparamos para visitar o Duty Free Shop, na fronteira argentina e, em seguida, a cidade de Puerto Iguazu. Foi lá que descobrimos um boteco de 3 m² com apenas uma mesa, onde marido e mulher nos serviram Quilmes de 1 litro e porções de queijo, salame e azeitona. A conta, depois de sairmos fartos e embriagados, custou-nos meros 25 reais (para 7 pessoas). É claro que voltamos nesta cidade mais vezes durante a viagem.

No dia seguinte fomos às compras no Paraguai, para alguns, para não dizer todos, a parte mais importante da viagem. Conhecemos o caos de uma cidade que parecia a versão ampliada do Shopping Oiapoque ou, como dizia o nosso guia Marcelo, parecia com aquelas cidades de filmes de ficção científica, onde os recursos se esgotaram e computadores ultra modernos se misturam à lama e ao lixo no meio da rua. Ao atravessar a famosa Ponte da Amizade, saimos em grupos para a aventura (ou seria melhor guerra?) das compras no Paraguai.
Primeira parada: uma lojinha, também de 3 m² no subsolo de um shopping completamente mocado. Um vendedor sírio-libanês muito suspeito falando portunholglesárabe e muito interessado em vender, me informa que tem a câmera que eu procurava, mas que tinha que pegar no estoque. Falou a mesma coisa para os meus amigos que procuravam por calculadoras, notebooks e etc. “Ok, depois voltamos, obrigado!”.
Segunda parada: a tão recomendada loja Monalisa. Ar condicionado, escadas-rolantes, vendedoras bonitas e bem uniformizadas, vitrines fantásticas com centenas de produtos. Sem chance. Os preços não eram nada melhores do que os do Diamond Mall. E não tinha McDonalds. Segunda, terceira, quarta, quinta, sexta, sétima parada: nada muito atraente.
Eis que dou uma idéia que, por incrível que pareça, nos salvou: Vamos voltar ao árabe! (apelido).
Voltamos.
Depois de especificarmos nossos produtos, ele pega o telefone e afobamente pronuncia algo do tipo: “اسقاط الاسود الغريب ان الكاميرا بالنسبة لي من فضل !!!”. Depois de duas horas de negociações, que envolveram muitas risadas e até uma degustação de amendoins, e de fumaças de diferentes charutos árabes, saimos com nossas câmeras, calculadoras e notebooks. No fim das contas, apenas duas pessoas do nosso grupo não compraram com o amigável sírio. As duas únicas pessoas que tiveram problemas com os produtos comprados na viagem.

Resolvemos, então, o menor dos nossos problemas. Ainda teríamos que passar pela alfândega. Ninguém queria declarar os produtos. Se nos pegassem, ninguém teria o dinheiro do imposto e da multa: nossos produtos ficariam retidos. Depois de tanta agústia, nos deparamos com uma placa que nos dava duas opções: enfrentar a fila para a declaração ou simplesmente passar direto. Passamos direto e resolvemos nosso problema. Estávamos no Brasil.

Na quarta-feira fomos finalmente à usina hidrelétrica de Itaipu. Localizada no Rio Paraná, está exatamente sobre a linha fronteiriça Brasil-Paraguai. Produzindo aproximadamente 90.000 GWh, Itaipu é a maior usina em geração de energia do mundo: A Três Gargantas, localizada no Rio Amarelo, na China, é maior, mas produz menos energia devido à geografia da região. Itaipu é binacional não só fisica mas politicamente. A construção foi feita por Brasil e Paraguai. Existem trabalhadores dos dois países lá dentro e se fala tanto o português quanto o espanhol. Um acordo feito durante o projeto estabelece que metade das 20 turbinas existentes deve produzir energia para o Brasil e a outra metade para o seu país-socio. Este consome, entretanto, apenas 4% da energia gerada em suas 10 turbinas e, por isso, vende o restante para o Brasil. O incompreensível é que o governo paraguaio optou por produzir a energia em 50Hz (freqüência usada também na Argentina). Portanto o Brasil, após comprar 96% da energia gerada pelas turbinas paraguaias, deve convertê-la para 60Hz (freqüência utilizada no Brasil). O custo adicional poderia ser evitado se apenas os 4% da energia produzida para o paraguai fosse convertido para 50Hz, pelo Brasil, como foi oferecido recentemente pelo presidente Lula.

Ao chegar na usina assistimos, junto com turistas japoneses, a um filme impressionante e ufanista, que nos deixou fascinados com a potência e a grandiosidade da usina e nos fez esquecer da corrupção, desvios de verbas e atrasos da obra. O filme também não fala que após bilhões de reais em impostos pagos pelos cidadãos brasileiros para construir “A Maior Usina do Mundo”, a cidade de São Paulo (consumidora exclusiva da energia de Itaipu) passou pelo famoso apagão e racionamento de energia. Após o filme, saímos, mais orgulhosos que impressionados, em direção à visita técnica. Recebemos capacetes e modernos fones de ouvidos para as instruções do guia. Entramos no ônibus que faria a chamada “visita de terceiro nível”, mais cientificamente aprofundada. Conhecemos a estrutura externa, as turbinas, os dutos de água, as salas de controle e os diferentes compartimentos da barragem. O guia era engenheiro eletricista e deu uma explicação de bom nível. Outros tipos de visitas podem ser feitas por qualquer turista, basta apenas se informar sobre as datas e horários em que ocorrem. Entretanto, a visita que fizemos precisa ser agendada. Para mais informações acesse o link Usina Hidrelétrica de Itaipu.

Na quinta-feira, fomos às Cataratas do Iguaçu, na divisa Brasil-Argentina, que podem ser visitas tanto pelo lado brasileiro quanto pelo argentino. Pagamos um preço módico para entrar no parque brasileiro, considerando que possui uma excelente infra-estrutura e a natureza está extremamente limpa e conservada. Coisa que certamente seria diferente se as cataratas fossem abertas e cuidadas pelo governo federal (não arrisco dizer o mesmo do governo paranaense). O máximo que eu posso dizer é que as cataratas são realmente maravilhosas. Certamente uma das Sete Maravilhas do mundo. Pena que os brasileiros insistem em conhecer a Torre Eiffel antes do seu próprio país.

Além dos passeios citados fomos a mais botecos e a um cassino, onde nos recomendaram ir vestidos elegantemente. Alguns foram de terno. Chegando lá, nos deparamos com velhos de bermuda e chinelos, deprimidos e solitários, enfiando moedas e puxando alavancas. Logo na entrada me proibiram de usar chapéu. Um pouco depois fui advertido a guardar, também, a minha câmera. Alguns minutos depois, uma elegante mulher me flagra cometendo outro 'crime': “Señor guarde, por favor, su telemóvel”. Bom, sem dinheiro, sem celular, sem câmera e, pior, sem chapéu, me restou esperar no sofá do hall de entrada. Bem confortável, diga-se de passagem.

Durante a viagem de volta tivemos ainda uma ultima surpresa. Umas três horas após a partida de Foz do Iguaçu, ainda no Paraná, sou acordado por um policial federal. Todos no ônibus estão em silêncio e atenciosos e percebo que há mais três policiais, armados com fuzis, dentro e fora do veículo. Sujou. Policia Rodoviária da Receita Federal com suspeita de contrabando e sonegação de impostos. Pior: éramos realmente culpados. Dez minutos depois, desinformados do que se tinha passado lá embaixo, entre os policiais, guias e motoristas, o ônibus prossegue viagem. Fomos informados depois que, para não terem o ônibus apreendido, os motoristas preferiram pagar um cafezinho para os amigos policiais. Agimos errado? Talvez. Mas a única certeza que eu tenho é que o dinheiro pago aos policiais será melhor utilizado do que os impostos que, no final, acabariam pagando a pensão de Mônica Veloso.

Mais detalhes tornariam este texto maior e mais cansativo. Basta usar a criatividade e imaginar 40 estudantes a 27 horas de suas casas. Mesmo nas horas não tão agradáveis ainda tinha meus amigos por perto. Nada é mais importante do que isto e nada me proporcionaria tanta diversão.