segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Uma viagem ao sul do país

No dia 16 de dezembro, manhã de domingo, eu e mais 40 pessoas saíamos em direção à cidade de Foz do Iguaçu - PR. Passando por São Paulo na ida e por Curitiba na volta, as viagens duraram cerca de 27 horas cada uma. A cidade com 270 mil habitantes, assim como as outras cidades que conheço no Paraná é bonita, limpa, arborizada e aparentemente tranqüila. Possui divisas com a cidade argentina Puerto Iguazu e com a paraguaia Ciudad del Este. E é em Foz do Iguaçu também que se encontra a maior usina hidrelétrica do mundo (em geração de energia).

Mal chegamos ao hotel na segunda-feira à tarde, e já nos preparamos para visitar o Duty Free Shop, na fronteira argentina e, em seguida, a cidade de Puerto Iguazu. Foi lá que descobrimos um boteco de 3 m² com apenas uma mesa, onde marido e mulher nos serviram Quilmes de 1 litro e porções de queijo, salame e azeitona. A conta, depois de sairmos fartos e embriagados, custou-nos meros 25 reais (para 7 pessoas). É claro que voltamos nesta cidade mais vezes durante a viagem.

No dia seguinte fomos às compras no Paraguai, para alguns, para não dizer todos, a parte mais importante da viagem. Conhecemos o caos de uma cidade que parecia a versão ampliada do Shopping Oiapoque ou, como dizia o nosso guia Marcelo, parecia com aquelas cidades de filmes de ficção científica, onde os recursos se esgotaram e computadores ultra modernos se misturam à lama e ao lixo no meio da rua. Ao atravessar a famosa Ponte da Amizade, saimos em grupos para a aventura (ou seria melhor guerra?) das compras no Paraguai.
Primeira parada: uma lojinha, também de 3 m² no subsolo de um shopping completamente mocado. Um vendedor sírio-libanês muito suspeito falando portunholglesárabe e muito interessado em vender, me informa que tem a câmera que eu procurava, mas que tinha que pegar no estoque. Falou a mesma coisa para os meus amigos que procuravam por calculadoras, notebooks e etc. “Ok, depois voltamos, obrigado!”.
Segunda parada: a tão recomendada loja Monalisa. Ar condicionado, escadas-rolantes, vendedoras bonitas e bem uniformizadas, vitrines fantásticas com centenas de produtos. Sem chance. Os preços não eram nada melhores do que os do Diamond Mall. E não tinha McDonalds. Segunda, terceira, quarta, quinta, sexta, sétima parada: nada muito atraente.
Eis que dou uma idéia que, por incrível que pareça, nos salvou: Vamos voltar ao árabe! (apelido).
Voltamos.
Depois de especificarmos nossos produtos, ele pega o telefone e afobamente pronuncia algo do tipo: “اسقاط الاسود الغريب ان الكاميرا بالنسبة لي من فضل !!!”. Depois de duas horas de negociações, que envolveram muitas risadas e até uma degustação de amendoins, e de fumaças de diferentes charutos árabes, saimos com nossas câmeras, calculadoras e notebooks. No fim das contas, apenas duas pessoas do nosso grupo não compraram com o amigável sírio. As duas únicas pessoas que tiveram problemas com os produtos comprados na viagem.

Resolvemos, então, o menor dos nossos problemas. Ainda teríamos que passar pela alfândega. Ninguém queria declarar os produtos. Se nos pegassem, ninguém teria o dinheiro do imposto e da multa: nossos produtos ficariam retidos. Depois de tanta agústia, nos deparamos com uma placa que nos dava duas opções: enfrentar a fila para a declaração ou simplesmente passar direto. Passamos direto e resolvemos nosso problema. Estávamos no Brasil.

Na quarta-feira fomos finalmente à usina hidrelétrica de Itaipu. Localizada no Rio Paraná, está exatamente sobre a linha fronteiriça Brasil-Paraguai. Produzindo aproximadamente 90.000 GWh, Itaipu é a maior usina em geração de energia do mundo: A Três Gargantas, localizada no Rio Amarelo, na China, é maior, mas produz menos energia devido à geografia da região. Itaipu é binacional não só fisica mas politicamente. A construção foi feita por Brasil e Paraguai. Existem trabalhadores dos dois países lá dentro e se fala tanto o português quanto o espanhol. Um acordo feito durante o projeto estabelece que metade das 20 turbinas existentes deve produzir energia para o Brasil e a outra metade para o seu país-socio. Este consome, entretanto, apenas 4% da energia gerada em suas 10 turbinas e, por isso, vende o restante para o Brasil. O incompreensível é que o governo paraguaio optou por produzir a energia em 50Hz (freqüência usada também na Argentina). Portanto o Brasil, após comprar 96% da energia gerada pelas turbinas paraguaias, deve convertê-la para 60Hz (freqüência utilizada no Brasil). O custo adicional poderia ser evitado se apenas os 4% da energia produzida para o paraguai fosse convertido para 50Hz, pelo Brasil, como foi oferecido recentemente pelo presidente Lula.

Ao chegar na usina assistimos, junto com turistas japoneses, a um filme impressionante e ufanista, que nos deixou fascinados com a potência e a grandiosidade da usina e nos fez esquecer da corrupção, desvios de verbas e atrasos da obra. O filme também não fala que após bilhões de reais em impostos pagos pelos cidadãos brasileiros para construir “A Maior Usina do Mundo”, a cidade de São Paulo (consumidora exclusiva da energia de Itaipu) passou pelo famoso apagão e racionamento de energia. Após o filme, saímos, mais orgulhosos que impressionados, em direção à visita técnica. Recebemos capacetes e modernos fones de ouvidos para as instruções do guia. Entramos no ônibus que faria a chamada “visita de terceiro nível”, mais cientificamente aprofundada. Conhecemos a estrutura externa, as turbinas, os dutos de água, as salas de controle e os diferentes compartimentos da barragem. O guia era engenheiro eletricista e deu uma explicação de bom nível. Outros tipos de visitas podem ser feitas por qualquer turista, basta apenas se informar sobre as datas e horários em que ocorrem. Entretanto, a visita que fizemos precisa ser agendada. Para mais informações acesse o link Usina Hidrelétrica de Itaipu.

Na quinta-feira, fomos às Cataratas do Iguaçu, na divisa Brasil-Argentina, que podem ser visitas tanto pelo lado brasileiro quanto pelo argentino. Pagamos um preço módico para entrar no parque brasileiro, considerando que possui uma excelente infra-estrutura e a natureza está extremamente limpa e conservada. Coisa que certamente seria diferente se as cataratas fossem abertas e cuidadas pelo governo federal (não arrisco dizer o mesmo do governo paranaense). O máximo que eu posso dizer é que as cataratas são realmente maravilhosas. Certamente uma das Sete Maravilhas do mundo. Pena que os brasileiros insistem em conhecer a Torre Eiffel antes do seu próprio país.

Além dos passeios citados fomos a mais botecos e a um cassino, onde nos recomendaram ir vestidos elegantemente. Alguns foram de terno. Chegando lá, nos deparamos com velhos de bermuda e chinelos, deprimidos e solitários, enfiando moedas e puxando alavancas. Logo na entrada me proibiram de usar chapéu. Um pouco depois fui advertido a guardar, também, a minha câmera. Alguns minutos depois, uma elegante mulher me flagra cometendo outro 'crime': “Señor guarde, por favor, su telemóvel”. Bom, sem dinheiro, sem celular, sem câmera e, pior, sem chapéu, me restou esperar no sofá do hall de entrada. Bem confortável, diga-se de passagem.

Durante a viagem de volta tivemos ainda uma ultima surpresa. Umas três horas após a partida de Foz do Iguaçu, ainda no Paraná, sou acordado por um policial federal. Todos no ônibus estão em silêncio e atenciosos e percebo que há mais três policiais, armados com fuzis, dentro e fora do veículo. Sujou. Policia Rodoviária da Receita Federal com suspeita de contrabando e sonegação de impostos. Pior: éramos realmente culpados. Dez minutos depois, desinformados do que se tinha passado lá embaixo, entre os policiais, guias e motoristas, o ônibus prossegue viagem. Fomos informados depois que, para não terem o ônibus apreendido, os motoristas preferiram pagar um cafezinho para os amigos policiais. Agimos errado? Talvez. Mas a única certeza que eu tenho é que o dinheiro pago aos policiais será melhor utilizado do que os impostos que, no final, acabariam pagando a pensão de Mônica Veloso.

Mais detalhes tornariam este texto maior e mais cansativo. Basta usar a criatividade e imaginar 40 estudantes a 27 horas de suas casas. Mesmo nas horas não tão agradáveis ainda tinha meus amigos por perto. Nada é mais importante do que isto e nada me proporcionaria tanta diversão.

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